Veículos em alta velocidade, dirigidos em estradas congestionadas por motoristas descuidados e irresponsáveis, geram grande número de acidentes graves, dos quais os serviços médicos de emergência devem se encarregar. Entre as causas de óbito, somente as doenças cardiovasculares e o câncer se encontram à frente dos acidentes, dos quais mais de cinqüenta por cento ocorrem nas estradas.
Contudo, apesar do elevado número de traumatizados, a assistência aos mesmos extrapola os limites restritos do atendimento médico propriamente dito, envolvendo pessoal não médico na prestação dos primeiros socorros. Assim, o atendimento imediato nos locais dos acidentes, o transporte dos feridos e as medidas de emergência imediata, freqüentemente constituem tarefas a cargo de pessoal não médico, não especializado, e na maioria das vezes, despreparado para tal tipo de atividade. Pode-se, pois, inferir o significado e o alcance do treinamento adequado de pessoal eventualmente envolvido nesse tipo de trabalho.
Deve ser levado em consideração que o atendimento dos politraumatizados coloca, frente aos hospitais, determinadas dificuldades específicas, tais como: pronto atendimento a qualquer hora do dia ou da noite, mobilização de recursos e de pessoal para cirurgias não programadas, necessidade de prestação de assistência a vários feridos em um mesmo acidente e o tumulto habitualmente provocado pela presença de acompanhantes, familiares e autoridades.
No que diz respeito aos médicos, o atendimento aos politraumatizados provoca uma série de situações que se constituem em verdadeiros desafios, que exigem, da parte dos médicos, experiência, tranqüilidade, capacidade de decisão e percepção correta, a fim de avaliarem, de maneira global, situações clínicas extremamente complexas.
O índice de sobrevida e o grau de invalidez dos politraumatizados são determinados, em grande parte dos casos, principalmente, pela experiência, capacitação e poder de decisão da equipe médica.
Nos grandes traumatismos inexiste, pura e simplesmente, uma somação de traumatismos; mas na realidade, configura-se um complexo de lesões que se relacionam, se potencializam e se complicam mutuamente. Por outro lado, a multiplicação dos tipos de pessoas que sofrem traumatismos – crianças, jovens, velhos, gestantes, portadores de patologias prévias – aliada às eventuais situações no momento do acidente (etilismo, drogas etc.) colabora para o aparecimento de novas e peculiares situações a exigirem dos médicos soluções adequadas.
Evidencia-se portanto, que o problema dos politraumatizados esteja ligado a uma série de variáveis até aqui mencionadas, a saber: o aumento do número de acidentes, o primeiro atendimento e transporte por pessoal não especializado, as condições específicas da assistência hospitalar, as condições operacionais das equipes médicas e as características peculiares desse tipo de paciente.
As condições de atendimento aos politraumatizados colocam os médicos em uma posição singular: são eles, juntamente com os familiares e os sobreviventes dos acidentes, as reais testemunhas da extensão e da dramaticidade das situações geradas pelos grandes traumas.
Essa singularidade impõe à consciência médica o dever de denunciar as circunstâncias que propiciam o aparecimento, em número cada vez maior, de vidas sacrificadas e existências mutiladas.
Dr. Levi Torres Madeira
Médico oftalmologista e membro titular
do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
