Antes de servirem à manifestação das emoções, as lágrimas têm a função de evitar o ressecamento das partes expostas do olho, a córnea e a conjuntiva. Para isso, precisam fluir livremente desde as glândulas lacrimais, onde são produzidas, e desembocar no exterior. O excesso é recolhido pelos ductos até o saco lacrimal, seguindo daí para a cavidade nasal.
A anomalia lacrimal congênita mais freqüente é a obstrução baixa do conduto nasolacrimal (na área da válvula de Hasner). A não canalização completa deste conduto na sua porção terminal, o transforma em “fundo de saco” e as lágrimas aí acumuladas podem se contaminar e desenvolver uma dacriocistite (inflamação do saco lacrimal).
O diagnóstico de uma obstrução congênita do sistema lacrimal não é difícil. A epífora (lacrimejamento) é o primeiro e mais constante dos sinais. O olho afetado encontra-se úmido, brilhante e geralmente com secreção mucopurulenta. A única manifestação pode ser uma conjuntivite moderada que não responde aos antibióticos tópicos. A persistência de conjuntivite crônica, apesar do tratamento e em especial se é unilateral, deve sugerir uma obstrução lacrimal congênita.
No tratamento da obstrução lacrimal congênita (e aqui os pediatras podem nos ajudar muito) estas quatro faixas etárias são de suma importância.
De zero a três meses
Cerca de sessenta por cento dos casos se resolvem espontaneamente até os três meses de idade. Nos casos com secreção mucopurulenta deve-se prescrever colírio antibiótico. Pode-se também tentar, nesta faixa etária, a massagem sobre o saco lacrimal. A massagem sobre o saco lacrimal na esperança de resolver o problema algumas vezes é eficaz e para ter melhor êxito deverá ser realizada pelo próprio oftalmologista, que deve introduzir seu dedo indicador profundamente sobre o tendão do canto medial do olho acometido e então deslizá-lo para baixo pressionando com firmeza, no intuito de que a pressão hidrostática formada rompa a membrana obstrutiva. A massagem na presença de uma dacriocistite crônica pode determinar uma pericistite e até celulite orbitária.
De três a seis meses
O tratamento de eleição nesta faixa etária é a desobstrução e alargamento do canal por meio de sondas especiais seguido de administração tópica de antibiótico. Pode ser feito sob anestesia geral (sedação) ou tópica (esta é a nossa preferência devido menor risco e menos custo para o paciente). Portanto, se a criança ao completar três meses de idade, persistir com epífora, deve ser providenciado a sondagem das vias lacrimais, não há mais o que esperar. Na nossa clínica realizamos com freqüência este procedimento e o prognóstico é excelente.
De seis meses a dois anos
Depois dos primeiros seis meses a percentagem de êxitos por sondagem se reduz gradualmente e no segundo ano de vida o resultado é muito ruim, pois a recidiva é quase certa.
Acima de dois anos
Só há um tratamento eficaz: D.C.R. (dacriocistorrinostomia) que é a ligação cirúrgica entre o saco lacrimal e a mucosa nasal. Neste caso fazemos primeiro uma D.C.G. (dacriocistografia)-raios-x contrastado das vias lacrimais a fim de detectarmos o local exato da obstrução. A DCR é uma cirurgia mais complexa que pode ser evitada com uma simples sondagem na idade adequada (três aos seis meses).
Dr. Levi Madeira
Médico oftalmologista e membro titular
do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
